Por que o usuário não precisa ser herói da jornada?

A jornada do usuário dentro de alguns produtos digitais é muitas vezes uma grande aventura. Ele tem que percorrer sozinho layouts difíceis e até mesmo enfrentar barreiras de dimensões monstruosas! Preparamos este artigo para apresentar uma comparação entre a jornada do herói e a jornada do usuário, mostrando que o usuário não precisa ser herói para navegar em um produto digital.
Fabiano Favretto | 25 de agosto de 2020

Uma grande aventura é repleta de diversos desafios e barreiras. Dentro de um produto digital não é diferente: layouts difíceis, problemas de navegabilidade e usabilidade são algumas das barreiras que o usuário pode encontrar em seu caminho. A jornada do usuário muitas vezes faz com o que o mesmo tenha que ser um herói para finalizá-la. Apresentamos assim uma comparação entre a jornada do herói e a jornada do usuário para mostrar que o usuário de um produto digital nem sempre precisa ser um Herói para utilizá-la.

O que é a jornada do herói?

A jornada do herói é muito usada para criar enredos e temáticas para livros, filmes, games e diversas formas de arte definindo um caminho ou arco a ser seguido em uma história. Mas, você deve estar se perguntando: “afinal, o que é a jornada do herói?”.

O antropólogo Joseph Campbell definiu em seus estudos o conceito de “Jornada do Herói” (ou monomito), no qual mostra que há um caminho em comum na estrutura das histórias de muitos heróis ao decorrer dos tempos. Ele resume:

“Um herói se arrisca a sair do seu dia a dia comum para uma região de maravilha sobrenatural. Forças fabulosas estão lá para ser encontradas e uma vitória decisiva está a ser ganhada: o herói volta a partir dessa misteriosa aventura com o poder de conceder bênçãos sobre seus companheiros.”

Mas, como essa saga se constrói?

Etapas da jornada do herói

Na adaptação feita por Christopher Vogler, na obra “A Jornada do Escritor”, a jornada do herói é dividida em três grandes atos, compostos ao todo por doze etapas:

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  1. Mundo Comum - O mundo cotidiano, ordinário, antes de se tornar herói;

  2. Chamado à Aventura - Um problema/desafio é apresentado ao herói;

  3. Recusa do Chamado - A hesitação do herói diante da aventura;

  4. Encontro com o Mentor - Que o ajuda na preparação para o desconhecido;

  5. Travessia do Primeiro Limiar - A entrada no mundo fantástico;

  6. Testes, Aliados, Inimigos - Encontra novos desafios, aliados e inimigos durante a jornada;

  7. Aproximação da Caverna Oculta - Lugar perigoso e misterioso;

  8. Provação - Nesta etapa o herói enfrenta seu maior medo, lutando com a possibilidade da morte;

  9. Recompensa (Apanhando a Espada) - Ao sobreviver a etapa da provação, o herói consegue o tesouro que buscava;

  10. Caminho de Volta - Marca a decisão de voltar ao mundo comum;

  11. Ressurreição - O herói se transforma, tornando-se um ser com um novo entendimento;

  12. Retorno com o Elixir - A volta do herói ao mundo comum com o tesouro conquistado.

E agora você me pergunta: o que tudo isso tem a ver com a jornada do usuário? Bem, vamos lá!

Não transforme todo caminho do usuário em uma jornada

Imagine que você, em seu mundo comum, recebe um chamado para uma nova aventura: precisa aprender a usar um produto digital, seja qual for a tarefa que necessita realizar (APP, software, site etc). Desafio aceito, você se depara com uma interface, mas nela não há nenhuma dica de uso. (Cadê o “mentor”?. Para onde ir? Devo prosseguir ou não?

Supondo que decidirá prosseguir, nessa nova interface você fatidicamente encontra desafios e dificuldades em avançar. A usabilidade da interface começa a ser sua inimiga, fazendo com que a recompensa (finalizar a tarefa que deseja) esteja cada vez mais distante.

Após conseguir realizar a tarefa que precisava, bastaria salvar o progresso para poder voltar ao mundo normal, fora do produto digital. Mas, de repente, (não me odeiem por isso) há um travamento ou erro grave no sistema e você quase perde tudo o que fez, não tendo feedback de que atitude deve tomar diante desse problema para concluir o seu caminho.

Com tudo o que aprendeu durante a sua jornada e com um pouco de sorte você consegue contornar o problema e encerrar definitivamente a aventura, voltando ao mundo real (UFA!).

Ao final de uma jornada dificultosa, o usuário nem sempre se sente como um herói, mas talvez muito frustrado com a experiência, podendo desejar nunca mais ter que voltar a encarar esse desafio novamente.

Uma interface bem construída não deve impor desafios e nem monstros no caminho, mas sim ser mentora e guiar o usuário em sua jornada, proporcionando uma experiência orgânica e fluida no que diz respeito tanto ao visual quanto à própria usabilidade.

O usuário não é um herói, mas busca sempre, mesmo que inconscientemente, seu elixir: o tempo valioso para trilhar suas próprias aventuras no mundo real.

Referências:

Fabiano Favretto
UX/UI Designer | Café sem açúcar, música, usabilidade e um bom livro. A arte me move e o Design me puxa.